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Em breve, "luiscarmelo.net" irá agregar todo o arquivo do Miniscente sem deixar de repor, em coluna própria, a sua continuação. Mais sucinta, claro. Os tempos estão twitterianos. Nessa página aparecerão elementos biobibliográficos e ainda ligações a todas as actividades a que estou ligado (crónicas, ensaio, edição da PNETliteratura, @Learning próprio e institucional, comércio de design, etc...).
e Este post é o número 4000, imagine-se. And I´m still here. Mas também vos digo uma coisa: esta é uma imagem (parcial) da segunda loja de design que abro em apenas um ano. Com tudo o resto em que estou metido (...), como posso eu ter tempo para o Miniscente? But I´m still here!
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Eu acho normalíssimo que a Fernanda Câncio diga o que diz. O que são os limites da deontologia e o que são as declarações de interesse, quando o que está em causa é o que há de mais fundamental na vida? Não pode aceitar-se o que alguém diz na condição, ao mesmo tempo de jornalista, de inquiridora de uma verdade e também de apaixonada? Ou ter-se-á sempre que segmentar e adequar cada uma das funções a um discurso, a um modo de dizer e a uma declaração de interesse específica? Curiosamente, quando a questão saltou das modalidades comunicacionais mais imediatas e actuais (blogues ou twitter) para os jornais, logo Fernanda Câncio foi tratada por “namorada do primeiro-ministro” e não pelo seu nome. Sintomático. Como se ser “namorada” esvaziasse o que se é e como se a evidência de uma ligação correspondesse tão-só a uma banalidade, ou a algo à parte da pessoa que se é (da Fernanda que é Câncio). Todos adoramos os mitos do amor eterno – os túmulos de Alcobaça, Sá Carneiro e Snu ou até, para os mais distraídos, a francesinha de Salazar –, mas quando o frisson não tem distância de mito, embora altere o sentido de fundo, logo a ‘coisa’ desperta terríveis abalroamentos. Como se uma letargia a saber a ciúme obrigasse a ré a separar a máscara de colunista da de jornalista. Como se a boca não fosse a mesma que diz. O que estará por dizer. Com a sua urgência própria. Não dou uma rosa a Fernanda Câncio, mas dou-lhe uma ameixoeria em flor. Chega?
eNas últimas décadas, os pontos de referência deixaram de ser fixos para se transformarem em fios-de-prumo ao vento. Os valores bem inscritos num horizonte de vida - foi essa ainda a minha educação em casa, na rua e nas escolas - deram repentinamente origem a uma pintura gestual ao jeito de Pollock. Um aceno radical de traços e cores que esvaziou comportamentos, representações e modos estáveis de comunicar. O tempo real, a performance pura, o individualismo, a simplificação digital e o narcisismo entraram em cena como se não houvesse, hoje em dia, lugar para o passado ou para o futuro. Apenas presente. Um presente com assomos de eternidade, feito para corpos eternamente jovens e para muitas outras crenças simuladas e ilusórias do género.
Não me queixo, confesso. Prefiro uma sociedade livre, aberta e desideologizada a uma sociedade de dogmas onde a democracia não passe de um armário institucional fechado a sete chaves. Contudo, há extremos que começam a ameaçar, no nosso tempo, a liberdade. Até porque o que define a liberdade é a consciência dos limites que ela mesmo impõe. Um dos sinais dessa ameaça é a banalização: uma espécie de 'vale tudo' independentemente das consequências que possa gerar. Com efeito, quando se descobre que há no Magalhães uma sequência crassa de erros (mais ao nível do significado do que do domínio apenas sintáctico ou ortográfico), o impacto público é o de uma gargalhada - que vale pela exclamação "Ah... este país!" - e, logo a seguir, o do esquecimento. O presente em que vivemos, ininterruptamente construído por imagens que nascem e morrem (como pixels), dita que assim seja.
A carruagem passa e tudo se banaliza. Sem excepção. Na esfera política (veja-se o modo frugal como as derrapagens financeiras são relativadas por altos responsáveis), na esfera judicial (veja-se como o 'tempo' da justiça não passa de simples objecto de análise), na esfera mediática (veja-se como o recente concurso Zon-Tele5 decorreu), na esfera educativa (atente-se a que é que realmente correspondem os conteúdos das "Novas Oportunidades") ou na esfera financeira (veja-se o modo como são tratados aqueles que andaram a brincar, ao longo dos anos, com o dinheiro dos outros).
Na Laranja Mecânica, Kubrick foi um profeta deste nosso tempo. No filme de 1971, o tédio e a indiferença a qualquer tipo de ética levava a matar como se se bebesse um copo de água. A alegoria está hoje presente em todas as séries de televisão, mas também - e isso é que é grave - no âmago da nossa própria vida real. Outro dia, fui acordado a meio da noite por um estranho ruído e consegui ainda chegar a tempo de espreitar pela janela o que se passava na rua. Um grupo de estudantes universitários dava pontapés nos vidros da minha loja. Por prazer incontrolado. Estilo Laranja Mecânica. Por tédio, impotência ou espírito de performance pura. Sem lugar para o sentido. Por amor ao tempo real do acontecimento. Qual é o problema, afinal, de... dar chutos numa montra de vidro temperado?
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frases que parecem fáceis/ são como pedras a respirar/amadas por águas ágeis/alumiam o que as quer matar.
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It could be worth
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Há períodos que, pela sua natureza - e este parece ser um deles -, convidam avidamente a que não se tenha medo nem da tragédia, nem sobretudo da comédia. Uma e outra podem afinal ser íntimas irmãs, dando-nos a sensação de que estamos a atravessar uma ponte vertiginosa. Como se estivéssemos a sair de uma fase para entrar noutra irremediavelmente diferente. E sem quaisquer precedentes. Passagem árdua e cheia de perdas, mas também anunciadora de redenção.
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Ao fim e ao cabo, a liturgia da nossa cultura sempre passou por estes - às vezes ilusórios - estados de choque. E o importante, convenhamos, nem é tanto o choque. Nem o que se perdeu ou virá a ganhar. O importante é antes aquilo que realmente nos consegue exaltar no coração do presente. No nosso dia-a-dia. No momento em que nos encostamos ao sofá da sala, após mais um fio ininterrupto de horas a trabalhar, a porfiar ou a auscultar os mil e um sinais de "crise" que nos batem à porta, sendo o maior deles a sua própria repetição. Na televisão, na rádio ou na boca doméstica dos nossos interlocutores mais próximos.
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O tempo é fértil para desenhos animados. Os personagens rocambolescos de hoje já nada têm que ver com o 'esconde esconde' do Apito Dourado. A gargalhada está agora do lado dos senadores da moral que tentam gritar mais alto do que a tempestade. É por isso que ninguém os ouve. Mas todos os vêem, claro.
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Manuel Alegre e Santos Silva fazem verso e reverso desta sátira, um dizendo-se pigmeu, o outro senador da moral intangível. O pior é quando o mais imprevisível degelo derrete os figurões e deixa à mostra a nudez do príncipe. Cinema mudo no seu melhor.
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Não há nada pior do que um mito. Primeiro existe como sonho capaz de domar a vida, depois, tal como Ícaro, pode subitamente ver as asas a derreter. Manuela Ferreira Leite foi durante anos vista como providencial. Antes e depois da sua passagem fugaz pelo governo de Durão. Esquecendo outras viagens e outros tempos (na educação, por exemplo). Mas manteve sempre a imagem de uma ‘dama de ferro’ à portuguesa, capaz de ordem, rigor, frescura política e mobilização. Numa palavra: capaz de enfrentar o abismo com grandeza. Sondagens de lado, o que sobra hoje de tudo isso? O mar como que recua depois da maré alta. Espuma.
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A grande virtude e, ao mesmo tempo, a grande falha da blogosfera foi - e é - o seu teor centrípeto. Desde 2002/2003 que assim tem sido. No início, a inevitável tentação de os bloggers visarem a blogosfera e não a atmosfera na sua comunicação contribuiu para que uma nova cascata surgisse no espaço público (e se tornasse visível de fora). O imponderável assustou então os actores clássicos da área, os mesmos que mais tarde viriam a absorver e incoporporar o meio (basta dar um breve passeio pelos sites dos jornais para o comprovar). Quanto mais a voz do blogger continuar, hoje em dia, 'a falar' para os outros membros das restritas comunidades de bloggers, tanto mais a blogosfera tenderá a ser um nicho cada vez menos incómodo. Até porque as pequenas comunidades são todas iguais: vigilantes, censórias e limitativas (sem que, neste caso, o aceno tal aparente). Esta realidade foi um dos factores que, a certa altura, digamos em finais de 2006, me fez começar a abrandar aquilo que sempre se designou por "participação" (o próprio termo releva a centripeticidade). Esta análise implicaria outros desenvolvimentos e em nada diminui a importância - bem pelo contrário - do círculo de afectos e amizades criado (pelo menos no meu caso) com muitas pessoas que conheci por causa da blogosfera. Trata-se antes de uma questão que valeria a pena objectivar, independentemente dos protagonistas e das comunidades (muitas identificáveis) em cena. Creio que a blogosfera poderia, de algum modo, renascer... se uma suave catarse ao seu teor centrípeto fosse levada a cabo. Bom ano!
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Um pasmar que bebe a surpresa como os lábios aspiram a água do coco. É assim o tempo livre, ocioso, liberto dos cortinados do palco que delimitam, no dia-a-dia, a errância dos passos e a loucura natural das nossas gargalhadas alegremente sem sentido.
e Aqui vos deixo um catecismo para que se sintam acompanhados neste tempo de harmonia fragmentária e de motricidade espiritual.

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Sabe bem alimentar um blogue sem qualquer compulsão. Entre Julho de 2003 e o fim de 2007, foi, de facto, com bastante compulsão que tratei este espaço da rede: como uma expedição feérica, ao jeito de quem experimenta um novo instrumento e verifica que 'o que diz' é também - e quase sempre - parte desse instrumento. O uso da blogosfera é e foi, portanto, sempre parte do que haveria a dizer.
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A formação de comunidades com tendência para se fecharem é - e foi - um fenómeno que acompanhou a formação e definição da blogosfera portuguesa. O caso não é apenas lusitano, mas, nos primeiros tempos, terá sido parte de um processo de iniciação, cuja natureza se tem vindo a esvair à medida que a individuação se tem vindo a emacipar dos limites (algo impositivos e criadores de censuras, remissões e implicações próprias) das comunidades antes formadas e à medida, também, que a compulsão se tem vindo a transformar num quase normal 'facto que se comunica'.
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De algum modo, a sensação de fim da blogosfera prende-se com estas duas emancipações: do blogger face às contingências e pressões onde aprendeu a nadar e ainda - segunda emancipação - da 'urgência' do discurso face ao meio e face à inaudita visibilidade/exposição que o foram criando.
(clique para aumentar)
Destila-se a bobina do filme, imagem após imagem, e o relógio torna-se num muro. Visto de longe, parece até ter asas. O tempo faz a cor da erva, do mesmo modo que a névoa permite adivinhar a forma incerta do muro. Há dias assim: começam por ser meros delírios e avançam, depois, em direcção ao olhar como se fossem amazonas. Como nos filmes. Murnau filmou o Fausto e emprestou-lhe asas incorruptíveis. Lembro-me que, a certa altura, havia duas estradas que se juntavam num único ponto. Ponto de luz. Havia névoa, é verdade. E estava lá tudo. Menos o fio-de-prumo. E a música. Há dias em que a esperança volta a ser apenas uma palavra; ter saído de lá - da palavra - é que fez com que esperança não passasse da imagem do tal muro que antes tinha sido bobina, Fausto, delírio ou tão-só (perdoem-me as feministas) amazona. Genealogias secretas.
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Um dia, era criança, caí no mármore. Literalmente. Como acontece em todas as iniciações. Era uma fonte esférica como o mundo e, talvez por isso, tenha percebido que o murmúrio dos deuses era - e é - um feito menor. Deuses de seda que levitavam sem andas. Era uma fonte feita de mármore e estava toda inundada de limões: espécie de nuvem silenciosa, sem densidade, mas de mármore. Compacta. Nasci no meio do mármore e nunca entendi os cemitérios como locais para a derradeira queda. Porque sempre revi nos estilhaços cor-de-rosa que percorrem a pedra a bonomia de uma paixão, cujas figuras se espreguiçariam sob as raízes de oliveiras antigas. Essas, sim, ermas, perdidas, algo deserdadas. Um dia caí dentro deste pranto esbranquiçado e em vez de encarnar, vi o mar. À beira mármore, havia um mar de limões. Do outro lado, havia a compaixão da guerra. Tem sido sempre assim. Até hoje, dia da maior comoção.
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Não sei se são recortes, se são guardanapos, se são guerreiros diáfanos. Foram entretecidos por Edgar Mosa, numa cidade onde deixei vários anos de vida e onde os rostos são estelares. E onde o queijo é feito da espuma que não coube no olhar de Sísifo.
Agarro-me ao pêndulo da Rita Botelho e respiro fundo. O oceano como uma mesa sem fim. A aguarela, por cima, como escalada entre o tampo, o pó e a visão. Sonhei um dia com um fio-de-prumo que terminava num aro a girar sobre si mesmo. Uma bailarina de baquelite com olhos densos, azulados, espumosos. A boneca que está ainda sentada na montra da Palmdwarsstraat. O tricot em vez do oceano e a mesa sem fim em vez do pêndulo. Luzes azuladas, néon, passos apressados, perguntas. Continuo agarrado à trave do carrossel e a vida escoa como o pó ou como aquela visão com que sonhei um dia, era Inverno, e as gabardinas de cor viva (amarelas e vermelhas sobretudo) deslizavam sobre o gelo do canal cheio de príncipes perfeitos. Uma boneca engalanada e de pernas muito abertas. O tricot em vez da liquidez. O desejo como uma respiração profunda. O aro espelhado e a força da gravidade. A rosa feita de pano. As perguntas. O eco. A desesperança. É sábado e ainda bem que assim é.
Clicar para aumentar e
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Nota: Este mesmo livro vai ser apresentado na Livraria Intensidez, em Évora, na quinta-feira dia 20 de Novembro pelas 18,30h.
Uma pausa, hoje em dia, tem o nome de morte. É a velha história da impaciência diante do que se imagina ter que ser perfeito. O que antes era a impaciência dos místicos face ao apocalipse ou dos comunistas (de há cem anos) perante a "apoteose da humanidade" é, no nosso tempo, a impaciência diante dos cliques. Mais do que tês cliques é a morte. A pausa, a espera - como estás longe Eurídice! - é agora sinónimo real de desaparecimento. Mas o Miniscente vai passar a ter pausas e grandes esperas. Um novo modo de desaparecer, aparecendo.
Reato a escrita no blogue em pleno comboio. Só sei que quero manter este espaço, embora os territórios, hoje em dia, só existam quando feericamente actualizados. Mas quem sabe se este Miniscente não se vai mesmo transformar num espaço que não existe, existindo?
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Por alguma falta de tempo - "alguma" é favor -, nem tenho aqui divulgado as minhas crónicas do Expresso Online. Aproveito, no entanto, para dar conta do que escrevi nas últimas dezasseis semanas (fica o título de cada uma das crónicas e o respectivo link):
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Pois foi. A Clara e o Miguel acabaram a volta ao mundo e eu demorei três semanas a colocar aqui a última crónica que me enviaram. É a que se segue, escrita ainda na África Austral, depois de terem aventurosamente atravessado o planeta no sentido das Américas-Pacífico-Oceania-Ásia-África e, de novo, Europa. Que me desculpem!
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África do Sul
e
Imagino uma nuvem. No meio dos círculos de medo e ódio, loucura e amplitude deste país, aparece na forma de um momento. Dou-lhe um nome. Humanidade.
e
Têm um ar duro, são quatro ou cinco ou mais homens de um negro aflito a sair-lhes de cada poro. Enfrentam a máquina fotográfica com desprezo de bandido. As mãos são armas e dedos desiludidos. Mas de pose firme para a incerta posteridade. Até que lhes mostro o resultado. Só observo. E tremo. Com medo. Um a um, pegam no seu reflexo. É esse o momento que retenho. De uma nuvem a sair-lhes pelos dentes. Feliz. A violência esquecida por um instante de verdade.
e
E da maior humanidade.
e
Outra nuvem: no meio de um caminho duro, entre leões, vida e a terra maior do mundo, uma cassete velha canta, em Xhosa, língua de estalos e surpresas. "Com a voz canto a minha África, a minha liberdade".
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- Esta é a única frase de toda a canção. – diz o Sam, um homem de sonhos que nos guia por aquele castanho forte. - Não gosto de músicas cheias de letras. As frases verdadeiras precisam de espaço.
e
Imagino mais nuvens. Esmagadas por medos, ódios, loucuras e amplitudes deste país. Tão negro e branco e inicial. O maior país do mundo. Espero que existam.
e
Escrevo em casa. Em círculos. Sem saber se cheguei ontem ou não cheguei ainda. Tenho este sul de África na garganta, em pedaços vivos. Como uma música de letra verdadeira e que precisa de espaço. Uma nuvem.
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Texto: Clara Faria Piçarra
Fotografia: Miguel Sacramento
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Começou hoje o site PNETliteratura. O que explica, pelo menos em parte, o silêncio aqui acumulado no Miniscente. Bastará abrir o novo site para perceber porquê.
Uma noite
a névoa de ouro
a corda a desprender-se
como o fogo
a atear
o navio
polar.
A respiração crepuscular.
Quando a transparência dos canais era
o olhar
de frente
feito de argila
a respirar
no fundo do rio.
De férias, ou melhor, entre dois períodos de férias. A própria ideia de férias é tão recente (e ocidental) quanto confusa: implicaria separar o que se entende por trabalho do que se possa entender por descanso. Na prática, toda a gente interioriza muito bem este tipo de separação, já que ela nasceu numa sociedade que se inventou a si própria atribuindo menos força à iniciativa do que à lógica do por conta de outrem. Mas as férias significam tudo menos inactividade. As férias são uma indústria e, ao mesmo tempo, uma ostensão. É nas férias que o gelo, parecendo derreter, se torna em iceberg: um imenso jogo de espelhos que, embora imaginando-se livre, acaba por encarnar a rotina e o mimo de um formigueiro.
e
Faz já em Setembro um ano que a Clara Piçarra e o Miguel Sacramento partiram para uma volta ao mundo. Foram para Ocidente e regressarão pelo Oriente. Do último continente percorrido, a África, chega-nos agora, não uma crónica, mas uma "respiração": e
"Primeira Respiração"
e
"Estou em África.
e
O ar é maior, enche-me o peito com uma força que me ultrapassa. Há uns dias, quando menos esperava, senti-me a descalçar. E andei. Andei com os pés dentro da terra, num passo arrastado, demorado, sem forma conhecida. Não sabia que podia entrar assim no mundo. O céu é maior…mas não nos esmaga. Preenche todos os espaços. É mais do que cor, mais do que uma ilusão. Há uns dias, quando menos esperava, deitei-me sem tecto. E ouvi. Cada estrela, cada cheiro. Descobri. Que aqui o céu tem… som.
e
Se eu fosse uma árvore era África. Ou um animal. Ou uma pedra. Era África. Seria o meu próprio início. Acho que é verdade."
eed
e
Pois é, este sexto ano de Miniscente tem sido dominado pela inércia. Não é tanto a dificuldade em aqui vir, devido às muitas ocupações; é sobretudo o adiamento a que dou carta branca sempre que sinto inclinação mínima em postar. Não sei, mas deve ser mesmo falta de vontade de continuar a blogar. Ou não serão as férias, essa desejada e longínqua presa que me olha, ainda de longe, como um touro para um forcado?
e
Há dez meses, a Clara Piçarra e o Miguel Sacramento partiram para uma volta ao mundo que o Miniscente tem acompanhado... passo a passo. Embora já se encontrem em África, hoje a crónica chega-nos ainda da Indonésia e fala-nos, entre outras coisas, das consequências de um recente e terrível maremoto: e
"Indonésia – Bali e Sumatra (Pulau Nias)"
e
"Há alturas em que ficamos quase sem nada. Não porque perdemos, ou desistimos, ou deixámos de agarrar. Ficamos quase sem nada. Porque vimos. Olho para longe e sinto a onda como se fosse minha. Nos pés. No peito. Na incerteza. Sou água ou sol? Sou vento, azul, quase transparente. Se pudesse chorava. Ou gritava. Ou sorria. Se pudesse. Mas deixei de ser formado por pedaços. Transformei-me em tudo. Desço a onda, sinto, faço parte. Não há nada fora de mim. As vozes são minhas, as cores, o sal, o momento curvo de força pura. Sei que não sou eu. Eu agarro apenas um sonho. Com as duas mãos, debaixo do braço… como se deve agarrar um sonho: com a certeza de que um dia vai ser inteiro.
e
Há alturas em que ficamos quase sem nada. Não porque perdemos, ou desistimos, ou deixámos de agarrar. Ficamos quase sem nada. Porque vimos. O caminho é duro. Não percebo porquê. O verde prolonga-se numa floresta cerrada que só desiste no mar. A estrada vence com calma cada curva. Recebem-nos com fruta e vontade. Por que sinto ser tão difícil? É quando estamos sentados num chão que serve conversa fácil que olho pela primeira vez. Não para o verde, não para o mar… para o vazio. Todas as casas estão vazias. Não há mesas, ou cadeiras, ou quadros. Há apenas vazio fechado entre paredes e tectos. Nias foi destruída por uma onda gigante que vimos na televisão. Nos anos seguintes dois tremores de terra resumiram a destruição. Lentamente, as casas vão crescendo como as pessoas que ali vivem. Num vazio envolvido por pele fina. Mas que guarda uma esperança que não sabia possível.
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Os desequilíbrios não são a perda da vertical. São os espaços vazios que se criam quando não há justiça. Temos culpa. Porque sabemos que existem."
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e
Parece que foi hoje, mas a verdade é que as primeiras palavras do Miniscente foram escritas num ambiente muito diferente do que hoje nos respira e envolve.
e
O 09/11 estava ainda fresco, o Iraque fervilhava em pleno, Durão era PM, o caso 'Casa Pia' ainda não existia e uma nova (e pouco compreendida) febre comunicacional estava a arrancar em Portugal.
e
Este desafio ao espaço público, com a tonalidade com que foi singrando há pouco mais de meia década, durou pelo menos três anos. Foi um início de milénio caudaloso! De facto, foi particularmente interessante ter assistido e colaborado na emergência de uma nova área dos media (ainda não absorvida pelas tradicionais) que apostava em ser um pouco de tudo do que já se conhecia - diário, memórias, crónica, botequim, crítica, monólogo, etc. -, embora marcando sempre identidades para fora desses perímetros referenciados e excedendo, sem quaisquer preconceitos, o esquematismo ficção-realidade e/ou verdade/sentido.
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Foi também um auspicioso e generoso movimento de afirmação personalista, num tempo em que tudo aparentemente parecia condenado ao apagamento autorial. Foi ainda a reocupação de uma área militante, mas sem ideologia a comandar os barcos, os portos, os submarinos e as secretas.
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A nomes conhecidos da opinião, juntar-se-iam imensos nautas que pretenderam cunhar a sua expressão através de um novo labirinto, de que a figura dourada do "link" foi muitas vezes - por ausência ou presença - protagonista de ouro.
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Enfim, a primeira década do século XXI teve a sua própria onda expressiva, de algum modo comparável - colocando de lado as auto-descobertas da tecnhé - à do cinema que floresceu cem anos antes.
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Aliás, o desafio expressivo criado pelo novo meio (e que sempre me encantou enquanto fenómeno) levou-me mesmo a escrever um livro, publicado já este ano, que tentou levar a cabo o balanço compassado e pensado de toda esta euforia.
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Não creio que a explosão bloguista - ou blogueadora - tenha já acabado; o que creio é que ela já não existe do modo fulgurante com que se fez significar no tempo da 'grande bolha' (digamos: 2003-2006).
e
O Miniscente, nos últimos cinco anos, atravessou todo este terreno. Um terreno imensamente fértil, mesmo sob o ponto de vista humano. Não sei o que teria feito, se não me tivesse ocupado tantas horas na redacção de perto de 4.000 posts. Mas não me arrependo. Olho para trás e compreendo que foi uma fase virtuosa e arrebatada. Adoraria, em todas as fases da minha vida (passadas ou futuras), poder sempre mergulhar em comunidades tão estimulantes quanto foi a dos blogues no seu período de excelência.
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Agradeço a todos os que me têm lido e acompanhado nesta saga. Não posso prometer o que já prometi noutros aniversários do meu blogue. Também não acabarei com o Miniscente neste dia de festa! A eutanásia não é quase nunca boa conselheira. Se este meu blogue tiver que acabar, acaba naturalmente. Por ora, prometo uma coisa: o Miniscente vai envelhecer com a mesma serenidade com que o meu cão Ulisses também está a envelhecer. Hoje em dia, no mundo célere em que vivemos, cinco anos são cinco séculos. Quase meio milénio, ou seja: qualquer coisa já muito perto da salvação.
e
Na véspera do quinto aniversário do Miniscente, deixo aqui mais quatro de treze poemas preparados para celebrar o microacontecimento:
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A árvore
w
Existe um salmo
a invadir o antigo rumor de Boticelli
w
basta olhar para as árvores sem género
que gravitam entre o vazio e a folhagem densa da Primavera
para entender o modo como as formas
semeiam na consciência
uma poeira fina de argila vermelha
que nos traz
rosto a rosto
dia a dia
o horizonte quase inabitado.
wA procura
e
Disse que o caminho era longo
uma descida íngreme entre o vestígio dos caules e a lentidão da voz
e
trouxe o musgo em que imaginámos
os acampamentos e o fulgor das
vias e viadutos à procura do mundo
e
seguiu pela grande estrada e era já demorada a saudade dos moinhos de vento
escarnecidos pela luz da cidade.
e
O pólen
e
Subia pela rua que ia dar ao pólen
e
foi nesse dia que reviu
figueiras esvaídas e a luz que as abelhas
consumiram para ver passar
e
a beleza que era o nome desse incêndio
eeA noite
e
Estava reclinada sobre a noite
a entrever as giestas e um desses volumes
de alvenaria que irão dar à alma
e
dizia
e
que Vermeer era
o pintor
que teria gostado de a ver
e
voaria através da luz inclinada
e dessa penumbra inventaria a noite
que o rio já absorveu.
e
A dois dias do quinto aniversário do Miniscente, deixo os primeiros quatro de treze poemas escritos para celebrar o microacontecimento:
dd
A corrida
w
As luzes ao longe ciciavam
na memória dos muros
entre amores-perfeitos e o ressoar
dos passos com que regressava
no fim do Verão e havia chuva
ee
lembro-me de passar folha a folha
o tempo a correr como se a sombra trouxesse
ao suor aqueles dias já mais curtos em que
falava de bois deslumbrantes a cruzar a nora do quintal
e
havia silêncio ao fundo do corredor
e ciciavam luzes sob a maresia
enquanto olhava para a chuva
que tolhia a voz
e e
quem dera ao luar este amor
este rugido na falésia da memória
e
lembro enquanto caminho
sem idade
na direcção dos plátanos despidos.
e
O boi
d
O tempo serenou junto ao campo de aviação e os olhos do boi
levantaram-se lentamente e
viram o trono de deus
d
naquele tempo
a boa nova não apareceu no traçado dos rolos
mas sim nos relâmpagos
e nos cascos com que o animal avançava
em direcção ao rio,
cheio de farpas galanteios e sangue
d
nas águas viu-se como um deus no fim daquela tarde
e em cor de ouro escalou à arena do paraíso
abraçado ao toureiro aviador que era apóstolo da chuva.
d
O desafogo
d
Havia sangue nas rosas e o regador parecia
um céu
a clarear na memória do pasto
d
e as ovelhas continuavam escondidas sob oliveiras
ali mesmo
ao lado do corpo abandonado
e e d
O Corredor
ed
Era silencioso
longo
e a cortina ao vento
paralisava os sentidos
d
ao fundo
havia um corrupio de pombos a revolver
a escrita com que se respirava
o ar profundo e fresco do poço
d
passava em frente da cortina
bordada pelas viagens e aí permanecia
como se fosse uma deusa
a olhar para a crista das ondas
d
até que um dia a sétima vaga subiu pelo farol
e drenou a imagem com que se apagaou
na lembrança dessa paixão que era
secretamente
a minha.
ew
No próximo dia 15 de Julho, desta terça a oito, o Miniscente fará cinco anos. Um tempo simbólico, mais nada. Relembro sumariamente (com aquele tipo de síntese que não recobre a massa das coisas) o que tem sido esta saga.
e
e
O primeiro ano foi de vício e compulsão sem fim. O segundo ano foi de intensíssima apropriação do meio. O terceiro ano foi o ano que culminou com a evidência do metabloguismo. O quarto ano foi de mini-entrevistas e de aceso debate sobre a dupla ficção-realidade. O quinto ano foi tempo de travagem, de mais inércia e, sobretudo, de contemplação menos deslumbrada.
e
e
Nada sei sobre o sexto ano a vir, porventura o da desmobilização natural (até porque há novos desafios na rede a que vou ser chamado a partir do próximo Outono). Veremos.
Heresias, Islão e tentações involuntárias
ee
e
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e
Transgredir sem dar por isso é um dos mais extraordinários dons do ser humano. Nos seus mundos, animais e plantas sabem bem que a violação de regras é sinónimo de vida ou morte. Entre os humanos, por mais feéricas e rígidas que sejam as leis, existe sempre a deliciosa margem da tentação, mas sobretudo a capacidade de pisar o risco de modo totalmente involuntário. Nem sempre a inocência e a ignorância são causas desse dom transgressor. Muitas vezes é apenas o acaso, a simples errância ou o devaneio. Foi o que aconteceu comigo, já por duas vezes na vida, face a face com o Islão.
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Primeira história: recuemos uns aninhos e entremos, lado a lado, com a minha memória na esplanada das mesquitas. Melhor: entremos no que resta do antigo Templo de Salomão. Em frente, a Mesquita da Rocha e, à direita, a famosa Mesquita de Al-Aqsa. A primeira, a matriz do que viria a ser a história de toda a arquitectura islâmica; a segunda, o berço da tradição do Miraj, ou seja, da ascensão de Maomé aos céus (facto criado pelas tradições orais e não pelo verso cunhado e "recitado" do Alcorão). Deslizo lentamente por este terreno que é, decerto, um dos mais mitológicos do mundo. E, distraído, acabo por entrar nas centenárias portas de Al-Aqsa.
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Até aqui nada de novo. Só que me esqueci de tirar os sapatos. Por trás de mim, ouço subitamente gritos: vozes que quebram o silêncio, vozes que me fazem imaginar espadas em forma de crescente e o rumor daquelas batalhas que, nas profecias da Idade Média, eram reportadas com o sangue a chegar à barriga dos cavalos. Não sei como, mas consigo sair dali do mesmo modo que o sorriso de Adão se terá curvado, um dia, diante dos insondáveis caprichos de Eva. Em minutos, não mais, estou na Via Dolorosa a comer o precioso grão do khumus e a lembrar-me da açorda que se come no Alentejo.
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Segunda história: passo por Vilar Formoso, compro um presunto e entro, dia e meio depois, no meu bairro em Amesterdão. No dia seguinte, vou à rua comercial mais próxima, o Dique de Haarlem (Haarlemerdijk), e, num repente, coloco o presunto de porco sobre o balcão da loja dos meus amigos marroquinos. Após tantos anos de confidências e empatias (para além da óptima azeitona e da alquimia dos coentros), faz-se um silêncio de morte. E eu sem perceber porquê. Até que de um nada (inexplicável) abruptamente se fez luz. Lembro-me que passei o resto dos anos que vivi na Holanda a pedir desculpa.
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A propósito destas incursões meio acrobáticas, devo confessar que nunca mais esqueci um poema de Ibn Sâra de Santarém. Um poema que descreve o olhar de quem vem de fés ou respirações diferentes e entra, sem mais, em aquário alheio: "Olho sempre a tua face com apreensão:/ eras a água clara onde abundam/ os crocodilos". De facto, nem sempre abundam crocodilos no lago. Como nem sempre há leões na arena. Embora a épica que mais atrai os humanos seja a que é percorrida pela tragédia diária: histórias de leões e crocodilos em sangue, histórias de transgressão involuntária que acabam em contenda, enfim - histórias letais.
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Editado por Fernanda Irene Fonseca, saiu a público, há cerca de um mês, o Diário Inédito de Vergílio Ferreira. Para além de romancista e ensaísta, o autor ficou também conhecido como diarista de fundo, por via sobretudo dos volumes do Conta-Corrente (entre 1980 e 1994). O que não era público até agora era a aventura do diário, ao longo dos anos que sucederam o final da Segunda Grande Guerra Mundial, de 1945 a 1949 (com ligeiro intervalo em 1947).
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A chegada de Vergílio Ferreira a Évora, onde iria viver quase década e meia, domina o diário. Os ecos da vida literária e política do país, neste período conturbado, também ecoam nas pouco mais de cem páginas do volume agora editado pela Bertrand. Mas este diário também acolhe factos pessoais de relevância: o casamento do escritor, o dia dos seus trinta anos e os momentos em que a doença assalta a alarmada consciência do autor de Aparição.
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Há precisamente sessenta anos, no final de Junho de 1948, escrevia Vergílio Ferreira: “É a terceira ou quarta vez que tento o diário. Suponho que desistirei ainda. Tudo e a repugnância de ver o papel que me lê”. Este desafio de blogueador – próprio de quem começa e acaba com a facilidade de uma nuvem que se faz e refaz – é tão livre quanto a revelação que é depois levada a cabo para justificar a própria escrita: “A ironia, essa confissão irresponsável, é o único meio que tenho à mão de condescender em me observar”.
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Ou seja: o “papel” – sim, falamos de um tempo em que se escrevia à mão – parece querer observar o escritor do mesmo modo que o escritor se observa através de uma ironia deliberada. Num trecho de 30 de Junho de 1948, Vergílio Ferreira estabelecerá uma semelhança (panteísta) entre a luz que entra pela janela e a “irresponsabilidade” da confissão que antes designara através da palavra “ironia”:
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“Do alto da galeria da janela pende uma cortina de cassa em pregas fluidas. Com a aragem breve que vem lá de fora, as pregas ondulam abandonadas. A lâmpada apagada roda com o abajur em torno do fio suspenso do tecto. Caio no fundo do sofá e deixo, irresponsável, que a luz quebrada do céu de tarde desça sobre mim, me cubra de sossego.”
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Estes sortilégios dir-se-á ‘rendilhados’ fazem – ou fizeram – o que era, à época, a sacralizada vida de um escritor: um destino ímpar. Veja-se: “Creio que não se fazem obras só com palavras mas também com a própria pessoa do escritor, a sua presença, a sua voz, até a sua gravata. Que são escritores descobertos depois de mortos senão isso mesmo?”. Um destino ímpar em que o escritor surgia em cena como o sacerdote da convulsão moderna. Era este o impasse que caberia a um Vergílio Ferreira de trinta anos quebrar. Um confronto que o existencialismo e a fúria da leitura completavam.
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Estamos tão longe deste “caldo de cultura” (como dizem os pregões televisivos franceses) como do dia em que Henrique VIII disse – “Mate-se!”. A literatura, hoje em dia, é uma natureza exótica e pouco praticada. Confunde-se com a miríade de livros que escala pelos escaparates como mulúsculos nos mercados de Xangai. A coisa que foi a literatura – uma revelação da sociedade e do humano como referência central de vida – encheu o século dezanove e boa parte de novecentos. E hoje olha para nós como uma “ironia” que quase radicalmente nos escapa.
Na última aula de semiótica do ano, uma aluna chamou "função fálica" a uma função que o não era. Passou a ser.